Jornais antigos e os seus "tesouros"

Quando pensamos em genealogia, a nossa mente corre logo para registos paroquiais e assentos civis. Talvez nos lembremos ainda de inventários orfanológicos, testamentos ou processos judiciais. Mas há uma fonte silenciosa, muitas vezes ignorada, que pode transformar uma investigação: os jornais antigos.

Os jornais são o espelho social do tempo. E por isso podem tornar-se numa janela para a vida dos nossos antepassados. Neles encontrámos aquilo que os registos formais não conseguem nem foram criados para captar:

  • o contexto da vida quotidiana,

  • os pequenos acontecimentos que não chegam aos livros paroquiais,

  • as redes sociais e profissionais de uma família,

  • pistas inesperadas que desbloqueiam linhas difíceis.

E hoje, graças à digitalização, estas fontes estão cada vez mais acessíveis e pesquisáveis.

Conseguimos encontrar movimentos migratórios dentro do país e para fora, com os anúncios de partidas e chegadas, listas de passageiros, notícias sobre a emigração para o Brasil e África, e por aí fora. Ficámos a conhecer as ocupações e actividades económicas dos nossos parentes pois muitos jornais publicavam listas de comerciantes, anúncios e concursos públicos, nomeações, e outros mais. Conseguimos assim reconstruir vidas que não aparecem nos registos paroquiais. 

Por exemplo, na lista de "Géneros embarcados para postos portugueses" fico a saber que o Sr. Joaquim Thomaz de Brito, marido de uma das irmãs da minha bisavó, produzia genebra (licor feito de aguardente e bagas de zimbro) e aguardente. Já sabia que estava no negócios de bebidas além da política, mas agora é mais específico. 

Além disto, ficámos a saber sobre as festas que deram ou participaram, sobre os casamentos deles ou de outros em que estiveram presentes, as homenagens, a participação em clubes e associações, irmandades e corporações profissionais. No fundo, temos aqui uma oportunidade de espreitar a vida social dos nossos parentes.  

Vejam o que encontrei na segunda página do Jornal "O Porto" 24 de Abril de 1891. Eu já tinha encontrado o registo de casamento da irmã da minha bisavó Maria Josephina Mathilde Lorentzen com o Sr. Agostinho Maurício Moreira, no Arquivo Histórico Municipal do Porto (Casa do Infante) mas foi uma delícia ver esta publicação. Pena que não tem uma fotografia dos noivos e convidados. 

Os jornais também incluem notícias de morte (necrologias) com detalhes preciosos. Por vezes indica a causa de morte, o local onde aconteceu o óbito, nomes de familiares presentes no funeral, etc. Tudo isto são dados que podem ajudar a localizar o registo de óbito e, quem sabe desencravar um ramo que não saía do lugar. Além disso, às vezes ficámos a saber mais detalhes da vida dos nossos antepassados pelas publicações feitas por familiares e amigos como forma de honrar a pessoa que faleceu - elogio fúnebre. Com sorte, descobrimos histórias de vida que por uma razão ou outra não foram passadas de geração em geração. (Ver publicação Obituário de Frederick Lorentzen no jornal "O Comércio do Porto")

Às vezes, as páginas velhas de um jornal revelam pequenas histórias que dão personalidade às pessoas na nossa árvore. Podemos ler sobre acidentes, disputas, processos litigiosos, prémios, feitos militares, viagens feitas e até anúncios pessoais. Todas estas situações humanizam ainda mais os nossos ancestrais. Para não falar nos artigos que nos ajudam a entender as circunstancias que viveram: as crises, epidemias, guerras, movimentos políticos, e outros tantos. 

Sei que não é relevante a nível da história nacional ou mundial mas vejam este recorte de um roubo na casa do meu trisavô Lorentzen em 1895, pelos vistos cometido por Ana de Jesus Ferreira, também conhecida pela Ana das Iscas. 


Com tudo isto disponível, os jornais podem ser uma forma de preencher lacunas nas nossas pesquisas e encontrar a resposta que já demos tantas voltas para descobrir. E foi isso que aconteceu comigo. 

A história é breve: O meu trisavô (de quem já falei aqui no blog) Frederick Lorentzen, dinamarquês, e capitão de navios da casa Jann Hinrich Andresen no Porto, faleceu em 1903 na cidade do Porto. Para minha surpresa, no seu registo de óbito indica que era viúvo de Emma, cujo apelido é dificil de entender mas sei que esta senhora não era a minha trisavô. Quem era esta Emma? A minha trisavó chamava-se Christina Hinrichsen, falecida em Dezembro de 1890 no Porto, onde viviam desde 1863. Assim sendo, a Emma só poderia ser a segunda esposa. 

Tendo em conta a data de falecimento dos meus trisavós, este segundo casamento deve ter acontecido entre 1891 e 1903. Foi feita a pesquisa nos registos não católicos mas nada foi encontrado. Fiz a mesma pesquisa nos registos católicos e protestantes, mas também sem resultados. E fiquei sem saber qual era o nome completo da Emma e a sua naturalidade. 

Mas, quando estava a consultar os jornais sobre o acima mencionado Joaquim Thomas de Brito, por conta de este estar envolvido na Revolta de 31 de Janeiro de 1891 (considerado o primeiro movimento revolucionário com o objectivo de implantar o regime republicano em Portugal) lembrei-me de pesquisar o meu trisavô Lorentzen. 

Surpresa das surpresas, num jornal de Julho de 1895, "A Voz Publica", temos a menção de que tinha acontecido um consórcio. A mim parece-me mais ser publicidade ao Restaurante do Café Lisbonense mas mas sou grata por esta "publicidade" porque fiquei a saber a data e o nome completo da noiva: Emma Friederike Hermine Holbe. Vamos ver o que mais consigo descobrir e se consigo finalmente localizar o registo de casamento. 

Boas pesquisas para todos e não se esqueçam dos jornais. Quem sabe os "tesouros" que podem encontrar!


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